(Misael Nóbrega de Sousa, jornalista e professor, em 14/10/2024)
Eu nunca fui espiritualizado; uma dessas pessoas que encontram conforto em algo que não se vê, que não se toca. Mas, ironicamente, há uma presença quase física que me acompanha todos os dias: meu pai. É como se o vento me trouxesse sempre o timbre da sua voz. E os sinos se dobram em minha cabeça, numa ladainha eterna que mistura lembranças e saudades. “Eles dobram por ti”.
Estranho pensar que uma dor pode não doer. Mas é isso o que sinto: um peso surdo, constante, que eu não sei nomear. Não fui eu que morri, afinal, então por que essa ausência me sufoca tanto? O mundo é um grande panfleto, cheio de promessas feitas para nos enganar. Lutamos por coisas que, no fim, sempre se acabam. Qual é o propósito? Não há propósito. Sei disso, não porque perdi o bilhete da felicidade há tempos, e vivo tentando encontrar um caminho que não existe mais. Sei disso porque venci o medo que emperra qualquer desafio.
Meu pai, que em vida era meu norte, tornou-se meu Santo depois de morto. Invoco-o em todas as agonias. Estranhamente, parece que ele me aconselha mais agora. O que antes era alguém que me ajudava a levantar, tornou-se agora uma lição silenciosa, mas constante. E seus conselhos chegam, firmes e sábios, quando mais preciso.
Por ter deixado ele ir embora, sinto que “morcegos Augustianos” sobrevoam minha consciência. Não me perdoei ainda, não por sua partida, mas por não ter segurado sua mão com mais força. Sou obrigado a seguir o meu caminho que, de alguma forma, sempre me leva de volta a ele. Talvez seja essa a resposta, afinal.
Sua benção, painho.