A democracia brasileira numa encruzilhada

By | 15/03/2025 5:26 am

Há 40 anos, o País celebrava a volta do poder político para os civis. A conquista histórica, porém, foi só o início de uma jornada democrática cuja maturação ainda enfrenta diversos desafios

 

Imagem ex-librisO Brasil celebra hoje 40 anos de vida democrática, o mais longo período ininterrupto sob a égide das liberdades civis na história do País. Em 15 de março de 1985, José Sarney tomava posse como presidente da República em razão da tragédia que se abateu sobre a Nação com o adoecimento de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral dois meses antes e hospitalizado na véspera.

A histórica posse de Sarney perante o Congresso marcou o fim de 21 anos de ditadura militar e o início da Nova República, um ciclo no qual o País reconstruiu suas instituições, restabeleceu direitos e garantias fundamentais dos cidadãos e assistiu à alternância de poder por meio de eleições livres e justas, ainda que sobressaltado por dois processos de impeachment e uma tentativa de golpe de Estado. Ao fim e ao cabo, a democracia prevaleceu sobre os ressentidos com a abertura política. Mas isso significa que, 40 anos depois, estejamos diante de uma democracia plenamente consolidada? Este jornal entende que ainda não.

Sob os auspícios da Nova República, é inegável que a sociedade experimentou avanços políticos, econômicos e sociais típicos do regime democrático. A promulgação da Constituição de 1988, o pacto social do Brasil redemocratizado, é o mais vistoso deles, malgrado sua notável prolixidade. Também se deve à retomada da democracia a criação do Sistema Único de Saúde, expressão da saúde de todos como direito, e não como privilégio, a recuperação do valor da moeda e o fim da hiperinflação, a redução da pobreza e a ampliação dos segmentos sociais com acesso à educação, entre outros louváveis feitos civilizatórios que só governos do povo, pelo povo e para o povo podem realizar.

Contudo, se há avanços a celebrar, também há distorções e ameaças que não podem ser negligenciadas. Em que pese sua resiliência, a democracia brasileira ainda convive com fragilidades institucionais, com ataques a seus primados e com a ascensão de uma extrema direita que se orgulha de sua saudade da ditadura militar. Antes circunscrita às franjas da sociedade, essa direita tacanha – autoproclamada conservadora, quando é só reacionária – ganhou força eleitoral e agora explora as garantias do Estado Democrático de Direito para tentar subvertê-lo.

Como falar em democracia madura quando o próprio Congresso, a expressão maior da representação política, a abastarda por meio de uma abjeção como o “orçamento secreto” e suas derivações? No caso brasileiro, sui generis, o Poder Legislativo suplantou o Executivo na execução de parte substancial da porção discricionária do Orçamento, ficando com o bônus eleitoral sem ter qualquer responsabilidade sobre a execução das obras e dos programas que recebem os recursos – e isso tudo ao abrigo dos mais elementares controles republicanos. Emendas opacas chegaram a financiar campanhas eleitorais em diversos municípios, como revelou este jornal, uma completa subversão da própria democracia representativa.

Também não se pode considerar madura a nossa democracia, ao menos não sem falsear a verdade dos fatos, quando a mais alta corte de Justiça do País, olímpica em relação às críticas de boa-fé que lhe são feitas, segue cometendo uma pletora de barbaridades jurídicas supostamente em defesa, ora vejam, da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Ademais, aquele Supremo do alvorecer da Nova República, discreto, cioso de sua missão constitucional, transformou-se num tribunal que trata suas incursões indevidas sobre a vida política do País como um dever moral.

Cabe à sociedade aprimorar a democracia que está a seu serviço. Passividade não se coaduna com a democracia vibrante que queremos para o Brasil. É preciso reafirmá-la todos os dias, derrotar nas urnas os discursos autoritários e fortalecer as instituições que garantem sua higidez com a força das leis. Um bonito caminho foi percorrido desde 1985, mas a História ensina que retrocessos são possíveis quando os cidadãos não valorizam nem defendem suas conquistas.

Category: Nacionais

About Luiz Gonzaga Lima de Morais

Formado em Jornalismo pelo Universidade Católica de Pernambuco, em 1978, e em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. Faz radiojornalismo desde 09 de março de 1980, com um programa semanal na Rádio Espinharas FM 97.9 MHz (antiga AM 1400 KHz), na cidade de Patos (PB), a REVISTA DA SEMANA. Manteve, de 2015 a 2017, na TV Sol, canal fechado de televisão na cidade de Patos, que faz parte do conteúdo da televisão por assinatura da Sol TV, o SALA DE CONVERSA, um programa de entrevistas e debates. As entrevistas podem ser vistas no site www.revistadasemana.com, menu SALA DE CONVERSA. Bancário aposentado do Banco do Brasil e Auditor Fiscal do Trabalho aposentado.

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