(Misael Nóbrega de Sousa, jornalista, professor universitário e poeta, em 19/03/2025)
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Senhoras e senhores, o que assistimos na Assembleia Legislativa da Paraíba não foi um processo democrático, mas uma encenação grotesca de poder. Sem sabatina, sem debate e sem transparência, os deputados aprovaram, quase em uníssono, a nomeação de Allana Galdino ao Tribunal de Contas do Estado. Não por mérito evidente, mas porque ela carrega um sobrenome influente: o de seu pai, o presidente da Casa, Adriano Galdino.
A Constituição e as leis estaduais estabelecem critérios claros para esse cargo: idoneidade moral, formação acadêmica específica e experiência comprovada nas áreas jurídica, contábil ou administrativa. Mas o que significa “experiência” na visão dos deputados paraibanos? Um cargo comissionado na Secretaria de Planejamento do Estado parece ter sido suficiente para validar a indicação. Tudo chancelado pela Comissão de Constituição e Justiça, que viu adequação onde há, no mínimo, uma fragilidade gritante.
E como se deu esse espetáculo? Parlamentares assinaram uma lista, a pedido do presidente da Assembleia, sem sequer saber quem seria indicado. Depois, de olhos fechados, referendaram o nome de sua filha, como candidata única, garantindo que a “disputa” fosse apenas um teatro de sombras.
O mais preocupante não é apenas o desrespeito às regras ou a ausência de critérios técnicos sólidos. É o silêncio. O silêncio dos deputados que aceitaram esse jogo sem resistência. O silêncio das instituições que deveriam zelar pela moralidade pública. O silêncio de um povo que, anestesiado pelo tempo, assiste ao espetáculo da política tradicional como quem já se acostumou com o absurdo.
O escritor francês Blaise Pascal escreveu: “A força sem justiça é tirana.” E tirania é exatamente o que estamos testemunhando. O velho coronelismo, que muitos juram superado, mostra-se vivo e confortável, sentado no centro do poder, travestido de normalidade institucional.
*Editorial do jornal Notícias da Manhã da rádio Espinharas FM de Patos 97.9 em 19 de março de 2025.