As 5 derrotas de Bolsonaro na semana que antecede decisão que pode transformá-lo em réu

By | 21/03/2025 8:02 am

Ex-presidente sofreu reveses nas ruas, no Congresso e no Judiciário em meio a tentativas de mostrar força e livrar-se de punições

(Ricardo Corrêa, no Estadão, em 20/03/2025)

Às vésperas do julgamento que pode torná-lo réu por ter tentado implementar um golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro sofreu uma série de derrotas em diversas frentes. Foram reveses que demonstraram as enormes dificuldades jurídicas, de articulação política e de mobilização na tentativa de escapar de um futuro que, cada vez mais, o aproxima de uma prisão.

A primeira derrota se deu já no início da semana, quando viu o público da manifestação convocada para Copacabana ser bem menor do que o estimado por ele e por seus aliados. Era uma tentativa de demonstração de força, que gerou resultado inverso: a impressão de que, por mais que ainda tenha um expressivo número de apoiadores, Bolsonaro não consegue engajá-los em sua batalha pessoal para livrar-se de punições e ver aprovado o projeto de anistia a acusados pelos atos de 8 de Janeiro.

Jair Bolsonaro, ex-presidente da República, teve semana difícil com derrotas em várias frentes
Jair Bolsonaro, ex-presidente da República, teve semana difícil com derrotas em várias frentes Foto: Wilton Júnior/Estadão

Aliás, a segunda derrota vem justamente no debate sobre este projeto. Ao contrário do que bradou que conseguiria a oposição bolsonarista, a votação em regime de urgência do projeto que aprova o livramento a esses condenados parece que não virá. Ao contrário, o presidente da Câmara, Hugo Motta, deve criar a comissão especial para discutir o tema, conforme prometido por Arthur Lira a PT e PL no ano passado. A comissão só será efetivamente instalada depois que os partidos indicarem seus membros. E a base governista não terá nenhum interesse em acelerar esse processo. Só aí começaria um longo processo de discussão sobre o tema. Não há aprovação prevista no horizonte do curto ou médio prazo.

Em outra frente, no Senado Federal, o bolsonarismo sofreu uma terceira derrota. Fracassou na tentativa de manobrar para beneficiar Bolsonaro com um enfraquecimento na Lei da Ficha Limpa. O texto reduziria o tempo em que um político ficaria inelegível por condenações, fixando esse prazo máximo em 8 anos, contados da decisão em que decretar a perda do mandato, da data da eleição na qual se deu a prática abusiva, da data da condenação por órgão colegiado ou da data da renúncia ao cargo eletivo. A base bolsonarista queria ainda reduzir o prazo para 2 anos, para tentar livrar Bolsonaro das punições aplicadas pelo TSE. Não houve acordo nem sequer sobre a versão menos danosa do projeto e a votação foi adiada.

Também nesta semana, o filho de Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, perdeu a batalha pelo comando da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e decidiu ficar nos Estados Unidos. Foi a quarta derrota de Bolsonaro na semana. A decisão inclui uma série de fatores: o recado de que não poderia assumir o cargo em razão de resistências de partidos da base e do centro, o risco de perder o passaporte (só cessado após a decisão de permanecer fora do País) e a necessidade de tentar articular junto ao governo americano algum tipo de pressão sobre as instituições brasileiras em meio ao risco de condenação e prisão do pai e de aliados.
Para piorar a vida de Bolsonaro, a insistência em um pedido de intervenção no Brasil se dá em um momento em que Donald Trump tem preocupações muito mais relevantes e urgentes. Ele trava uma batalha com a Justiça Federal para cumprir promessas de campanha; se vê em meio a uma guerra comercial com mais da metade do mundo; seu principal aliado e apoiador, Elon Musk, enfrenta protestos contra suas empresas; o presidente atua diretamente nas negociações para uma “paz” parcial entre Ucrânia e Rússia; enquanto os Estados Unidos fazem uma ofensiva militar contra os houthis, no Yêmen, em apoio aos esforços de Israel na Faixa de Gaza. Não há tempo na agenda de Trump e de seus principais aliados para pensar em um ex-presidente encalacrado com a Justiça pelas bandas de cá.

A quinta e última derrota é a mais relevante do ponto de vista jurídico. De forma rápida, em plenário virtual, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para derrubar as principais teses preliminares da defesa de Bolsonaro, as que tentavam tirar do julgamento os ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Uma maioria expressiva do Supremo deu o recado de que não vê elementos de suspeição e imparcialidade, e com isso a composição original da Primeira Turma poderá julgar o recebimento da denúncia na terça-feira.

A decisão de Barroso de pautar e julgar rapidamente os pedidos de suspeição, antes da análise do recebimento da denúncia, faz encolher as perspectivas de que, mais adiante, a defesa de Bolsonaro busque atrasar o processo ou anular atos praticados.

Até o momento em que escrevo o texto, os dois ministros indicados por Bolsonaro, Kassio Nunes Marques e André Mendonça, possíveis esperanças para o entorno do ex-presidente de que poderiam eventualmente pedir destaque e interromper o julgamento no plenário virtual, não se manifestaram. Ainda que formalizassem o pedido para que a análise se dê de forma física, adiando o veredicto sobre a suspeição e impedimento, isso não paralisaria o julgamento do recebimento da denúncia. Agravos, como são os recursos empenhados pelas defesas de Bolsonaro e Braga Netto neste caso, não possuem efeito suspensivo.

Assim, Bolsonaro vive sua pior semana às vésperas daquela que tende a ser ainda mais desafiadora. E com a certeza de que, muito provavelmente, assim será durante boa parte do ano, enquanto seu processo caminha, já deu para ver, a passos céleres rumo a uma decisão que tende a privá-lo da liberdade.

Category: Destaques

About Luiz Gonzaga Lima de Morais

Formado em Jornalismo pelo Universidade Católica de Pernambuco, em 1978, e em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. Faz radiojornalismo desde 09 de março de 1980, com um programa semanal na Rádio Espinharas FM 97.9 MHz (antiga AM 1400 KHz), na cidade de Patos (PB), a REVISTA DA SEMANA. Manteve, de 2015 a 2017, na TV Sol, canal fechado de televisão na cidade de Patos, que faz parte do conteúdo da televisão por assinatura da Sol TV, o SALA DE CONVERSA, um programa de entrevistas e debates. As entrevistas podem ser vistas no site www.revistadasemana.com, menu SALA DE CONVERSA. Bancário aposentado do Banco do Brasil e Auditor Fiscal do Trabalho aposentado.

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