(Luiz Gonzaga Lima de Morais, jornalista e advogado, em 28/03/2025)
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Três manifestações das mais importantes da nossa cultura nordestina estão a perigo: a música nordestina, a cantoria de viola e o cordel.
A música nordestina está indo para o “beleléu” com a a invasão da música dita sertaneja, que está acabando com uma das maiores manifestações culturais nordestinas que são as festas juninas.
A cantoria está sobrevivendo com o trabalho de alguns abnegados como uns poucos que se dedicam a promover cantorias e festivais e aos próprios cantadores que “dão o sangue”, para manter vivo o maior divulgador da nossa cultura que são os cantadores de viola.
Um exemplo recente do desprezo do poder público para com a cantoria do viola, foi o recente festival que estava programado para se realizar em Patos, na última quinta-feira, comemorando os cinquenta anos de atividade de um desse abnegados cantadores nordestinos, Severino Feitosa, que começou profissionalmente na Rádio Espinharas.
Feitosa preparou o orçamento do festival que girava em torno de quinze mil reais e submeteu a uma das secretarias do Governo do Estado, que prometeu patrocinar o evento. Com ajuda da Secretaria de Cultura de Patos e o apoio do vereador Júnior Contigo a cessão da Concha Acústica para realização do evento e com o vereador para a divulgação do festival.
Há uns quinze dias o Secretário Pedro Santos informou que só tinha conseguido doze mil reais para o evento. Feitosa contatou os poetas convidados que concordaram com a redução do cachê individual. Poucos dias depois o secretário ligou novamente para informar que só tinha seis mil reais disponíveis para patrocinar o evento, o que obrigou Feitosa, com todo constrangimento, a desistir da realização do evento, que estava sendo aguardado ansiosamente pelos amantes da cantoria de Patos e região. Eu próprio havia agendado a tradicional visita mensal a Patos para esta semana, para assistir ao evento.
Com relação a cordel tive a satisfação de saber que ele continua a sobreviver, graças a abnegação de alguns poetas de bancada, um dos quais, aqui bem pertinho de nós, na cidade de Santa Luzia.
José Medeiros de Lacerda foi durante toda a vida professor de Português, ensinado em escolas públicas do Estado e em escolas privadas, tendo ensinado em Patos, no Cristo Rei, no Diocesano, no Roberto Simonsen e no Instituto São José. No Estado ensinou em Santa Luzia, na região de Catolé do Rocha e na região de Monteiro, nestas últimas por perseguição política.
Amante da poesia, depois de aposentado, resolveu se dedicar a escrever e publicar a poesia de cordel. E com os folhetos ele tem percorrido todo o país, levando cordéis com personagens, mitos e figuras folclóricas do Nordeste, e pesquisando a história e o folclore das cidades que visita com assuntos de interesse de cada região.
Seus folhetos de cordel tem preço popularíssimo, que mal paga as suas viagens. Em Patos peguei cinco deles, na barraca Manchete, da minha querida amiga dona Zuleica, na calçada do Forum, mas ela não quis receber o pagamento. Meu amigo Beckenbauer, no Sebo Cultural, lá na Rodoviária Velha também vende os folhetos de cordel do poeta José Medeiros de Lacerda. Com Zuleica eu peguei os seguintes cordéis: João Pessoa, Cangaceiro, Político ou Coronel? Paraíba Masculina, Mulher Macho Sim Senhor; Os Desafios de Pinto do Monteiro; Chico Pereira, a Face Oculta da Morte; e Jurema, Um Cabra de Lampeão.
E por fim, como conheci pessoalmente o poeta?
Na minha viagem de João Pessoa para Patos, na última terça-feira, na Guanabara, sentou junto ao mim, um cidadão já idoso (que depois descobri que era dois anos menos um dia mais novo do que eu) e, para puxar conversa, perguntei até onde iria. Disse que estava vindo de fora, onde fora vender seus cordéis. Aí não faltou mais assunto até Santa Luzia, onde ele ficou.
Ou a gente cuida de promover estas nossas manifestações culturais ou daqui a pouco os nordestimos vamos perder as nossas identidades culturais.