A arapuca bolsonarista

By | 31/03/2025 7:26 am
Imagem ex-librisNo discurso de 50 minutos que fez após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de torná-lo réu por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, o ex-presidente Jair Bolsonaro deixou ainda mais difícil a tarefa dos líderes da direita brasileira que tentam se credenciar como candidatos à Presidência em 2026. Ao dobrar a aposta no tom político de sua defesa, atacando a legitimidade do STF para julgá-lo, retomando a sua ofensiva contra o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas e creditando seu julgamento a uma suposta tentativa de tirá-lo do jogo no ano que vem, Bolsonaro deixou claro ao País: qualquer liderança que pretenda herdar seus votos precisará estar umbilicalmente ligada a ele e afinada com o mais puro tom do bolsonarismo raiz.

Não foi apenas um discurso de defesa de si mesmo ou um exercício do sagrado direito de espernear permitido pelas boas democracias, mas a montagem definitiva da armadura bolsonarista para a disputa presidencial. “Parece que tem algo pessoal contra mim”, disse Bolsonaro, mais uma vez disposto a se apresentar como vítima de perseguição política. Afirmou não haver “crime nenhum não passar a faixa” ao presidente Lula da Silva, como se seu golpismo e reconhecido desapreço à democracia se restringissem à ausência na posse do sucessor. Negou ter havido uma trama golpista. Declarou que o Tribunal Superior Eleitoral “influenciou, jogou pesado contra eu (sic) e a favor do candidato Lula”. E voltou a sugerir, sem provas, fraudes nas urnas eletrônicas, afirmando que não é obrigado a “confiar em um programador”.

Foram 50 minutos de improviso – mas espertamente calculado – em que Bolsonaro pôde inflacionar o preço cobrado dos governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Ronaldo Caiado (Goiás), Romeu Zema (Minas Gerais) e Ratinho Júnior (Paraná), listados como seus possíveis herdeiros. Até mesmo Caiado, o único do grupo que é mais crítico ao ex-presidente, moderou sua fala sobre a decisão do STF, deplorando, como Ratinho Júnior, o fato de a decisão ter ficado restrita à Primeira Turma, e não ao plenário, e pregou o óbvio, isto é, a garantia do direito à ampla defesa. Zema derramou-se em elogios (“o maior líder da oposição ao governo do PT”) e desejou-lhe a recuperação dos direitos políticos.

Mas o maior desafio recai mesmo sobre Tarcísio de Freitas, não só por ser o favorito, como também por ser o mais dedicado e enfático defensor de Bolsonaro, enquanto tenta se apresentar como moderado e democrata – o exato oposto do que o padrinho é. Nas últimas semanas, Tarcísio esteve ao lado do ex-presidente em entrevistas e no ato de defesa da anistia aos golpistas, reafirmou apoio ao ex-presidente tanto em relação ao julgamento do STF quanto à eleição de 2026 e declarou que o padrinho provará inocência, enquanto o ouviu dizer que há três opções da direita para a candidatura de 2026: “Jair, Messias ou Bolsonaro”. Em contrapartida, fez elogios à Justiça Eleitoral, definindo-a como “garantidora da democracia”, tipo de discurso que costuma ser tratado como heresia pelos bolsonaristas mais empedernidos.

Tarcísio parece ter feito o cálculo de que estar com Bolsonaro não tira necessariamente votos do eleitorado anti-Lula e anti-PT, mas se afastar do ex-presidente o inviabiliza entre os eleitores mais fiéis do bolsonarismo. Como Bolsonaro já está inelegível e provavelmente será condenado e possivelmente preso, é muito remota a hipótese de ser ele mesmo o candidato. Desse modo, Tarcísio se apresenta como leal a Bolsonaro num momento de agonia política e se candidata a ser o ungido do bolsonarismo. Trata-se de um cálculo de lógica eleitoralmente razoável.

Há momentos na História, entretanto, que exigem coragem de lideranças para escapar do mero oportunismo eleitoral. É este o caso. Para o bem do Brasil, qualquer candidato da direita deveria cumprir uma obrigação moral: não só se afastar do golpismo, como condená-lo nos mais duros termos, censurando o extremismo que Bolsonaro representa. Sem meios-termos. Sujeitar-se à arapuca que Bolsonaro montou é negar ao País a possibilidade de recobrar a moderação, a qualidade do debate público, a pacificação e a esperança de uma política exercida com lentes liberais e republicanas.

Category: Blog

About Luiz Gonzaga Lima de Morais

Formado em Jornalismo pelo Universidade Católica de Pernambuco, em 1978, e em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. Faz radiojornalismo desde 09 de março de 1980, com um programa semanal na Rádio Espinharas FM 97.9 MHz (antiga AM 1400 KHz), na cidade de Patos (PB), a REVISTA DA SEMANA. Manteve, de 2015 a 2017, na TV Sol, canal fechado de televisão na cidade de Patos, que faz parte do conteúdo da televisão por assinatura da Sol TV, o SALA DE CONVERSA, um programa de entrevistas e debates. As entrevistas podem ser vistas no site www.revistadasemana.com, menu SALA DE CONVERSA. Bancário aposentado do Banco do Brasil e Auditor Fiscal do Trabalho aposentado.

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