Para Bolsonaro, somos um país de néscios

By | 01/04/2025 7:38 am

O ex-presidente quer que acreditemos que ter consultado chefes militares sobre medidas de exceção para impedir a posse de Lula é algo tão inocente e trivial quanto falar de futebol

 

Imagem ex-librisO ex-presidente Jair Bolsonaro explicitou, nos últimos dias, qual será sua linha de defesa no processo em que é réu sob acusação de participar de uma trama para dar um golpe de Estado: apostar que todos os brasileiros são néscios.

Bolsonaro quer que acreditemos que ter consultado os chefes militares sobre as medidas de exceção que poderiam ser tomadas para impedir a posse de seu sucessor legitimamente eleito é algo tão inocente e trivial quanto falar do calor ou da última rodada do Brasileirão.

Essa linha de defesa, que pode ser lida como confissão, tornou-se explícita logo depois que o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia contra Bolsonaro. O raciocínio é singelo: Bolsonaro diz que tudo o que discutiu com os comandantes militares dizia respeito a medidas previstas nas “quatro linhas” da Constituição, o que em sua visão tornaria o complô, ora vejam, constitucionalmente válido.

Bolsonaro diz que apenas discutiu com os militares “alternativas políticas para a Nação” logo depois das eleições, como se houvesse, na Constituição, alguma “alternativa política” à vitória inquestionável do petista Lula da Silva – que Bolsonaro nunca reconheceu de fato.

O ex-presidente deixou claro que discutiu as tais “alternativas” depois que seu partido, o PL, perdeu na Justiça Eleitoral um recurso em que contestava o resultado das eleições por causa de alegadas fraudes nas urnas. Ou seja, se houvesse apoio das Forças Armadas a uma leitura ardilosa da Constituição que avalizasse a manutenção de Bolsonaro no poder à revelia da vontade dos eleitores, essa “alternativa” seria adotada. Não há outro modo de interpretar as declarações do ex-presidente: o nome disso é golpe.

E Bolsonaro tem razão quando declara, em entrevista à Folha de S.Paulo, que um golpe de Estado não se dá de uma hora para outra, leva “anos” – pois de fato foram anos e anos, desde ao menos 2018, de uma campanha infernal do bolsonarismo para desacreditar as urnas eletrônicas e instilar nos eleitores dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral. Foi dessa maneira que os golpistas, Bolsonaro à frente, imaginaram ter criado o clima para a ruptura caso Lula vencesse a eleição: a inquietação social estimulada pelo bolsonarismo para desmoralizar as instituições daria legitimidade à adoção de medidas de exceção – as tais “alternativas políticas” alegadamente previstas na Constituição, isto é, estado de defesa, estado de sítio e intervenção militar.

O estado de defesa, conforme o artigo 136 da Constituição, pode ser decretado pelo presidente para “preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional”, restringindo-se direitos e dando o poder de prender acusados de “crimes contra o Estado”. O estado de sítio, por sua vez, é estabelecido quando o estado de defesa não é suficiente para impor a ordem ou quando há “comoção grave de repercussão nacional”. Ora, nada naquela época, nem mesmo a bagunça promovida pelos bolsonaristas diante dos quartéis, sugeria qualquer comoção que justificasse medidas tão extremas.

Já o artigo 142 da Constituição, também frequentemente citado por Bolsonaro, é aquele que os bolsonaristas vivem a invocar para justificar uma intervenção militar, em nome da suposta necessidade de restabelecer “a lei e a ordem”. Essa intervenção, segundo a interpretação golpista, deveria ser decidida pelo presidente da República para “assegurar a garantia dos Poderes constitucionais”, como se as Forças Armadas fossem um “poder moderador”. É desse modo que os saudosos da ditadura militar interpretam o artigo 142.

Assim, sem bases factuais para enfrentar as gravíssimas imputações da Procuradoria-Geral da República, a Bolsonaro parece não restar opções a não ser se dizer “perseguido político”, sustentar mentirosamente que o Brasil estaria sob uma “ditadura do Judiciário” e, por fim, banalizar os ardis que tramou para se aferrar ao poder.

A Bolsonaro deve ser assegurado o direito à ampla defesa, pilar do mesmo Estado de Direito que ele sempre renegou. Mas se sua defesa não é outra coisa senão uma cândida confissão, o trabalho do procurador-geral, Paulo Gonet, será bem mais fácil do que ele poderia imaginar.

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About Luiz Gonzaga Lima de Morais

Formado em Jornalismo pelo Universidade Católica de Pernambuco, em 1978, e em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. Faz radiojornalismo desde 09 de março de 1980, com um programa semanal na Rádio Espinharas FM 97.9 MHz (antiga AM 1400 KHz), na cidade de Patos (PB), a REVISTA DA SEMANA. Manteve, de 2015 a 2017, na TV Sol, canal fechado de televisão na cidade de Patos, que faz parte do conteúdo da televisão por assinatura da Sol TV, o SALA DE CONVERSA, um programa de entrevistas e debates. As entrevistas podem ser vistas no site www.revistadasemana.com, menu SALA DE CONVERSA. Bancário aposentado do Banco do Brasil e Auditor Fiscal do Trabalho aposentado.

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