O que está por trás do projeto que prevê anistia aos golpistas do 8 de Janeiro? (confira comentário nosso)

By | 02/04/2025 8:23 am

Congresso mantém queda de braço com STF e principais alvos são Alexandre de Moraes e Flávio Dino

(Vera Rosa, colunista do Estadão, em 01/04/2025)

Engana-se quem pensa que somente o PL de Jair Bolsonaro pressiona o presidente da Câmara, Hugo Motta, para pôr em votação o projeto de lei que concede anistia aos envolvidos na trama golpista do 8 de Janeiro de 2023. Nos bastidores, partidos que compõem a base aliada do governo e controlam ministérios também iniciaram uma ofensiva para emplacar essa pauta. A estratégia tem potencial para prejudicar votações de interesse do Palácio do Planalto em um momento de queda de popularidade do presidente Lula.

O apoio ao projeto em bancadas que vão do MDB ao núcleo duro do Centrão não é apenas para salvar Bolsonaro, que se tornou réu sob acusação de tentativa de golpe, ou mesmo para perdoar quem promoveu atos contra a democracia, o que já seria grave.

Na prática, trata-se de mais um capítulo da queda de braço do Congresso com o Supremo Tribunal Federal (STF). E os dois principais alvos são Alexandre de Moraes, relator do inquérito sobre a trama golpista, e Flávio Dino, magistrado que tenta fechar o duto do dinheiro público desviado por emendas parlamentares.

Alexandre de Moraes está na mira do Congresso.
Alexandre de Moraes está na mira do Congresso.  Foto: Antonio Augusto/STF

Recentemente, Moraes avocou sete inquéritos contra políticos que perderam o foro por prerrogativa de função. Os processos haviam sido enviados a instâncias inferiores. Um deles atinge o presidente do PSD, Gilberto Kassab, o secretário de Governo da administração Tarcísio de Freitas que se reaproximou de Bolsonaro.

O Congresso não entendeu o movimento do ministro do STF, que integra a Primeira Turma da Corte, batizada como “câmara de gás”. Kassab deu sinal verde para a bancada votar a favor da anistia, se o projeto for a plenário. Em outra frente, o PL e o Centrão querem ressuscitar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que impede a manutenção das investigações de ex-presidentes, ministros, senadores e deputados no STF após as autoridades deixarem seus cargos. A iniciativa beneficia Bolsonaro e outros políticos que veem o julgamento na Corte como uma espécie de morte anunciada.

Há apenas dois meses na presidência da Câmara, Hugo Motta tenta ganhar tempo para construir uma saída para o impasse. A estratégia passa até mesmo por conversas com o STF sobre a possibilidade de redução das penas dos condenados do 8 de Janeiro.

Enquanto a “solução” não vem, Motta pretende enviar para uma comissão especial da Câmara o projeto que anistia quem participou de manifestações pela ruptura institucional desde a vitória de Lula nas eleições de 2022. A manobra atrasa a tramitação da proposta.

“Se o presidente da Câmara não cumprir o compromisso assumido conosco de pautar esse projeto em regime de urgência, vamos obstruir todas as votações”, disse o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, que nesta terça-feira, 1, começou a pôr a promessa em prática. Uma planilha carregada por Sóstenes, aliado de Bolsonaro, mostra que 309 dos 513 deputados avalizam o projeto de anistia.

O senador Ciro Nogueira, presidente do PP, avisou que conversará com todos os deputados da bancada do partido na Câmara pedindo apoio à proposta.

“Vai começar a obstrução de tudo no Congresso. Será que o governo vai comprar essa briga?”, questionou Ciro, que foi titular da Casa Civil sob Bolsonaro.

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que aprovar urgência para essa votação é uma “afronta” ao STF. “A vida do Bolsonaro não pode ser a prioridade do País”, afirmou ela.

Figuram na lista dos projetos considerados prioritários pelo Planalto para sair das cordas e alavancar a campanha da reeleição de Lula a isenção do Imposto de Renda aos que ganham até R$ 5 mil e a Medida Provisória do empréstimo consignado para trabalhadores da iniciativa privada.

Embora manifestações pela anistia tenham mostrado até agora que esse tema não mobiliza a sociedade, a queda vertiginosa da aprovação de Lula, indicada por pesquisas, agrava o cenário para o Planalto. A oposição atua como sirene do apocalipse e aliados do governo cobram uma fatura ainda maior pelo apoio ao presidente no momento da reforma ministerial encruada. Quem sobreviver, verá.]

Comentário nosso: Chamamos a atenção para estas informações constantes da matéria:

Dados do STF mostram que, dos 1.604 réus nas ações penais do 8 de janeiro, nada menos que 546 fizeram acordo com a PGR, tiveram as ações suspensas e foram soltos. Dentre os que não aceitaram o acordo e foram acusados de crimes mais simples, 237 foram condenados a 1 ano de prisão e já cumpriram pena. Eles são praticamente a metade dos 500 condenados até agora. Há 205 condenados pelos crimes graves de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, golpe, dano qualificado e associação criminosa armada. Receberam penas de 14 a 17 anos e, pelos critérios de progressão de pena, estarão em regime semiaberto e até em prisão domiciliar antes do fim deste ano. Portanto, não é para estes condenados do 8 de janeiro que se volta o projeto de lei de anistia apresentado na Câmara. É para livrar da punição o réu Jair Bolsonaro e os comandantes do golpe, que ainda nem foram julgados pelo STF.” (LGLM)

Category: Blog

About Luiz Gonzaga Lima de Morais

Formado em Jornalismo pelo Universidade Católica de Pernambuco, em 1978, e em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. Faz radiojornalismo desde 09 de março de 1980, com um programa semanal na Rádio Espinharas FM 97.9 MHz (antiga AM 1400 KHz), na cidade de Patos (PB), a REVISTA DA SEMANA. Manteve, de 2015 a 2017, na TV Sol, canal fechado de televisão na cidade de Patos, que faz parte do conteúdo da televisão por assinatura da Sol TV, o SALA DE CONVERSA, um programa de entrevistas e debates. As entrevistas podem ser vistas no site www.revistadasemana.com, menu SALA DE CONVERSA. Bancário aposentado do Banco do Brasil e Auditor Fiscal do Trabalho aposentado.

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